Delineando

Novembro 27, 2009

Arquivado em: coruja — delineando @ 1:31 am

Hoje toquei nas vergonhas do dia
Alisei as curvas do tempo
Sussurrei ao vento libidinosas histórias
sobre como despir-se de si mesmo.

Com os pés na grama me entreguei
a umidade da terra, ao calor
que a tudo movimenta
pulsão e vibração
vinha de fora toda respiração
que ressoava dentro de mim

E gozei de estranho pudor
quando me vi sendo parte disso tudo.

…mas ínfima era a parte.
Meu tamanho era um elefante
Desenhado numa noz.

O mundo é vulgar
e nada nos redime de nada podermos fazer.
(de tão altar o céu traqueja a todo momento
a nossa limitação).
E como amante ressentida
Dá tapas de dor depois
dos nossos ataques defensivos.
É quando os dedos se fincam no chão.

Novembro 9, 2009

Arquivado em: coruja — delineando @ 1:34 am

Tudo está cheio daquele nada absurdamente nauseante. Ao balanço do tiquetaquear do silêncio – que, voraz, devora o tempo – viveu prazeres íntimos: sôfregos refúgios de quem não vive. Era seu estranho jeito de pertencimento no mundo. Como o estranho jeito de todos os seres humanos que, medíocres, acreditam que a profundidade é característica somente do seu ser, uma vez que o outro é sempre figura plana, carimbada e previsível.

Tudo está vazio daquele cheio absurdamente nauseante. E regurgitava reclamações sobre suas companhias fúteis. Reclamações tão superficiais que cumpriam exatamente a função que lhes cabe numa manhã de domingo: lidar com o tempo, com a solidão dos minutos sentidos.

Está vazio, tudo. Com náusea ela sentida que perdia tempo com as pessoas. Decidida, proclamou aproveitar mais seus prazeres solitários. Ninguém a compreenderia, tanto fazia. Ninguém vivia como ela.

Voraz, seu tempo devorava até mesmo a si mesmo.

(coruja)

Outubro 15, 2009

Arquivado em: Literalmente — delineando @ 3:51 am

com o ar de quem pode errar, estava atentadamente procurando copiar para a realidade o ser que ele era, e nesse parto estava se fazendo a sua vida. E a coisa se fez de um modo tão impossível – que na impossibilidade estava a dura garra da beleza. São momentos que não se narram, acontecem entre trens que passam ou no ar que desperta nosso rosto e nos dá o nosso final tamanho, e então por um instante somos a quarta dimensão do que existe, são momentos que não contam. Mas quem sabe se é essa ânsia de peixe de boca aberta que o afogado tem antes de morrer, e então se diz que antes de mergulhar para sempre um homem vê passar a seus olhos a vida inteira; se em um instante se nasce, e se morre em um instante, um instante é bastante para a vida inteira
(p.116)

é da Clarice – no livro “A maça no escuro“: e eis a melhor definição que já li de insight.

(coruja)

Outubro 7, 2009

da chuva que é líquida

Arquivado em: coruja — delineando @ 6:03 am

Fazia tanta chuva naquela noite. Como se nada mais pudesse ser dito. E cada gota confirmava nossa própria incapacidade em sermos bons: era a certeza fatídica sem dor, sendo ela a condição de ainda estarmos lado a lado – e por tanto tempo. Dez minutos era tempo, eternidade que outrora insuportável; agora confirmação de que nada necessitava ser provado porque tudo, tudo, absolutamente tudo, em algum momento ia ser refutável por alguém e era assim que as coisas eram. E, se assim era, era.

Mas era outubro de dois-mil-e-nove e nada durava mais do que quinze minutos. A chuva não diminuía e o que era conforto transformou-se no seu oposto. Tudo era assim, então não existia mais saída e estávamos condenados a ficar presos na mesma sala ao sabor do tempo. Tudo e nada: sem saída. O vento que soprava denunciava a falência da certeza, mesmo que certeza da não necessidade. Ser bom, ser ruim, ser ambos: não se tratava disso. A dúvida não era mais o ser. A dúvida passou a ser categoria em si. Então, numa cumplicidade de olhares falamos e falamos e falamos: do tempo que não dava trégua, do vento gelado, da comida da semana passada, dos trabalhos, das contas atrasadas, mas nenhum assunto era capaz de acabar com a chuva e nos libertar da prisão. Prisão da nudez. Nudez que sabíamos possuir e não importada qual roupa usávamos sabíamos que nascemos pelados, na condição de não saber. Falar era a tentativa básica de evitar o grito, o horror de estarmos frente a frente – tão vulneráveis, sem ao menos ter a incapacidade de sermos bons. Era o tempo. Esse conjunto de instante que nos caracteriza para além do meramente humano. O tempo nos define. Estivesse eu e você em qualquer outro momento dessa cadeia de momentos não regurgitaríamos aquelas palavras que naquele dia, naquela sala, debaixo daquela chuva, soltamos. Mas era outubro de dois-mil-e-nove e o que você me dizia era incerto. E eu respondia com dúvidas, mas afirmávamos, afirmávamos, por Deus, como afirmávamos! Apertava o polegar com o indicador e mal-dizia o governo, a política e a novela. Eu proclamava meu futuro como diplomata, como mulher independente e solteira. Você ria histericamente das minhas auto-ironias e se preocupava com a roupa molhada e o cabelo que deveria estar realmente horrível. Em um ultimo rompante da ansiedade tentei a única coisa que nos salvaria: mas eu não tinha tempo para perder e deveria logo ir embora, sair na chuva mesmo, pois, logo tomaria um banho e resfriado não era uma possibilidade. Então, nossos olhares se cruzam e silenciamos. Com o coração batendo pelo desespero, com o coração batendo pela esperança. A chuva parou. Vamos embora? E não me lembro de algo com um poder tamanho de reconstituir certezas como teu sorriso naquele dia.

Setembro 30, 2009

Passos

Arquivado em: Literalmente — delineando @ 1:51 am

Quanto mais conheço a cultura mais solidao
me afasto das pessoas. Não é para
ser assim… estou indo pelo
caminho errado :( (Andorinha)

Setembro 9, 2009

Entre as vírgulas

Arquivado em: coruja — delineando @ 9:57 pm

É a última vez que digo, meu bem.
Não quero ferir, machucar ou executar
Nada em mim, nem você.

Mas as palavras cortam, fragmentam a história
Inutilmente tentam exprimir aquilo que é além.
E por se saberem inúteis
apenas tateiam o instante.
Soluçam mentiras
Assopram as carícias – que voam
E tudo sobra depois.
Modificada pelos rasgos da palavra
a vida é sobra das preposições…

Por isso digo:
Não prometa tudo.
Não prometa nada

Não tenha medo das pequenas coragens
Não tenha medo daquilo encoberto pelos adjetivos.
Só os verbos sabem a dor da existência
Recuse, meu amor, o verbo não vivido.

Não deixe que no céu da boca
fiquem coladas as reticências
Elas devem ser expostas ao mundo:
a comunhão com o silêncio
a pausa movimentada que é o próprio infinito

É a última vez que te digo
Diga do aqui
De onde borbulham todas as letras
Todas as frases
De onde o abstrato se faz carne
e o amor fervilha para além das hipérboles.

(coruja)

Agosto 16, 2009

Conto infantil

Arquivado em: andorinha — delineando @ 5:31 pm

Em um lago nadavam duas cisnes fêmeas, belas, topetudas, magníficas.
Por vezes seres irracionais são dominados pelo instinto de dominar…
E ninguém sequer viu o que houve 1 segundo antes de ambas se encararam com fogo nos olhos.
Abaixaram a cabeça em posição de ataque, desafiando, mostrando o topo dos olhos ardentes…
Uma de cada lado emplumou-se obedecendo aos impulsos mais antigos e verdadeiros.
Porém com um desespero frívolo de parecer maior ou mais feroz que a adversária, sem demonstrar fraqueza, apenas a conjecturada superioridade impassível.
Aos olhos da platéia de bichos do lago, totalmente iguais e atraentes.
Repentinamente se precipitaram uma contra a outra. O que no cinema ganharia uma ópera intensa de fundo. O ataque.
Em suas cabecinhas se acreditaram touros chocando-se a toneladas, a percepção da adrenalina, da taquicardia sufocante.

Pobres criaturas, não passavam de patinhas se despenando em uma das brigas mais medíocres da fauna.
Abriam suas asas arrepiadas, esticavam seus pescoços e se chocavam repetidamente.
Patas desengonçadas insuportavelmente semelhantes terminaram a cena, novamente sem qualquer sinal precedente. Cada uma resistindo à mesma derrota e prontas para a próxima disputa que surgiria com um motivo existente apenas dentro daquelas duas mentes rivais.

Um sapo na espreita, fumando seu charuto, notou então que ambas já não estavam tão belas, assim lesadas, machucadas, sem seu maior poder.
É o que a natureza pode permitir para um mesmo lago. O lago soberano.
(Andorinha)

Julho 22, 2009

Arquivado em: coruja — delineando @ 9:58 pm

Algumas coisas você aprende sem admitir, principalmente as sujas. Com o tempo, verdadeiramente aproveitado, acaba nunca mais acordando cedo para ouvir aulas medíocres e aprende a desculpar-se para si mesmo acreditando que perdeu o horário outra vez.

Quando não se namora pela primeira vez, todas às vezes, sabe que não importa o que disser e o quanto de ciúmes é demonstrado, todos são meninos, rebeldes ou assumidamente carentes. Aperfeiçoa seu riso escondido das ofensas mais agressivas, pois todas acabam sendo, proporcionalmente, a medida do desamparo do garoto.

Seus relacionamentos afetivos com o sexo oposto não são mais pautados em critérios fúteis: jeito de se vestir, humor, gosto musical, opção de estilo literário, intelectualidade. Essas características são só usadas pela dita consciência, que não dita nada. E, quanto mais conhecimento forçosamente é demonstrado, mais fácil acaba sendo identificar as fraquezas, as defesas.

Pessoalmente sempre gostei dos que preferem whisky a cerveja, jazz a samba, cinema europeu ao latino. Não para me relacionar, claro. Tais meninos trazem tristezas mais profundas, fugas mais escancaradas e inseguranças mais engraçadas. Esses caras te cantam de forma ilegítima, sempre usam a jogada da crítica aos machistas e dizem que vão ser bons amigos. Automaticamente, depois de um tempo, você sabe que não é errado se divertir com isso. E, não se culpa mais por fazer o papel de interessada só para ver até onde vai, aliás, é o papel que todos, além desses, buscam em você. Não é errado deixar que mostrem o poder que sabem não possuir – deixar que batam o pinto na mesa e sempre saibam mais que você. E você, mostrando admiração passe talco na bunda e elogie a sapiência, a coragem e claro o poder desse herói. Ah, toda essa novela é o que tem de mais bonito e talvez esse papel seja a beleza de se saber mulher…quer dizer, é uma daz.

Ao passarem os aniversários ser mulher é estar sozinha e possuir toda a humanidade dentro do útero. É acabar acreditando que amizade verdadeira só se faz com inimigas em comum, mesmo que essas não sejam pessoas físicas e, mesmo sabendo disso, confiar. Pois só o mesmo gênero pode ter a empatia, pode sentir o que é ser o pecado, o inferno e a porra da condição feminina, divina e maravilhosa condição.

Com o tempo, o seu tempo acaba não significando muita coisa, talvez a vida passe a ser contada por porres para algumas, casamentos, diplomas ou filhos para outras.

Algumas coisas você aprende sem admitir, principalmente que o maior entendimento é não entender, mas viver a ânsia pela perplexidade. E, que se é a falta que nos constitui, que seu falso preenchimento entre pelos grandes lábios, sempre com paixão…

(coruja)

Julho 13, 2009

s/d

Arquivado em: coruja — delineando @ 4:06 pm

O esmalte descascado, a rouba por lavar, os textos espalhados pela sala e cada elemento que minuciosamente formou o fundo da fotografia velha – de tudo mais que,desapercebidamente existiu em mim. De tudo que nunca admiti saber, do meu avesso. Do pior que carrego: meu odor, minhas olheiras cavadas, minha prisão de ventre, meus limites.

Daquelas esperanças que ficaram reservadas. De tudo que se encontra no passado não admitido e tudo mais que formou a nostalgia de um tempo que não vivi: os ideais revolucionários da burguesia do séc.XVIII, a ocupação da Sorbonne em 68 e as guitarras um ano depois em Bethel.

Das angústias sãs com Lispector e das ânsias provocadas por Klein – da aprendizagem que não está nos livros e da ingratidão não mais lançadas aos pais. De tudo mais que compôs as letras da musica tocada pelo instrumento que nunca aprendi tocar.

Pelos desejos negados e pelos necessários esquecimentos. Pelas palavras que sempre me faltam e pelas que sobram como sujeira debaixo da unha, como lodo do ralo do tanque e o xerox da matéria bimestral.

Pelos quatro parágrafos acima e por toda defesa arrombada pela alegria efusiva que é sempre dor. Das coisas insignificantes e pelas palavras indizíveis eu trago: para mim e assopro pela janela, para o mundo. Deixando as cinzas pousaram como pena na memória.

(coruja)

Junho 20, 2009

Daquela Condição…

Arquivado em: Literalmente — delineando @ 10:09 pm

medíocre, tão medíocre quanto a vulnerabilidade dos fatos.
E damos significados,
E guardamos no íntimo a fómula secreta,
E almejamos com a força da própria vida pelo passo,
E o que nos impede????? Ora,
O medo, ou a preguiça?

(Maíra Clara: com todo o escuro da zebra)

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