As paredes são brancas, nada me dizem. O chão não tem terra, não respira – só piso, sem passos. E agente trabalha pra viver ou vive pra trabalhar? Não, não quero assim. É tão difícil viver. Não faz sentido. Se pergunto como vai tua semana você me responde: corrida. Mas corrida pra onde? Agente corre pra competir. Agente compete por maior grau de desamparo. Minha louça está suja faz uma semana. Faz uma semana que não lavo as roupas sujas e nem águo as plantas. Pra que? Rodar em círculos me deixa tonta, então pra que? Desistir talvez seja o maior ato de coragem, talvez não.
Quando a vida é real demais para se ter esperanças. Quando já não importa o que vou comer ou cozinhar no almoço… alguém sussurra no meu ouvido: “é possível. É com fé que se vive”. Fé em que? Na própria fé, já dizia Lispector, que pode ser um grande susto. Pode significar cair no abismo. Mas é preciso cair no abismo, sem saber e viver, ter fé. Minha avó tem três filhos de sangue, cinco de criação e a humanidade inteira para acalentar. Possuía sua humanidade no útero e sua existência nos seios, de onde todo amparo era possível. Me dizia: “é com fé que se vive” enquanto cuidadosamente plantava suas rosas. De suas entranhas sangrava vida, pulsava esperanças, fertilidade. Ela plantava rosas. Cuidava delas como alguém que tem certeza. Ela tinha. Oitenta e um anos de dor eram o bastante para se ter as certezas necessárias. Como mais uma de suas crias eu comia de sua comida, bebia seu café doce e ouvia suas histórias, cotidianamente. Mas precisei desses meus sete meses para compreender a responsabilidade de ter fé. Desse impulso que escorria por todos os cantos de sua casa. Do impulso que saltava em sua fala e adubada toda terra. Ter fé em ser, em estar sendo e saber que a nossa beleza maior nos escapa. Ser elo de ligação do pacto secreto e silencioso da humanidade. Transformar verbo em carne, sem saber verbalizar a mágica. É quando a fé no real transborda o real e se pode sorrir contente, pois, seu ventre aponta a existência do futuro e grita o possível. Ter fé é se saber na latência das coisas…
Arrumei a terra. Joguei algumas sementes. Será o bastante?
Paro e penso. Não, não é o suficiente…
Gostaria de acordar com aquela música e com aquela voz em um dia de sol. Tinha tantos planos. Ouviria as histórias, aprenderia a cozinhar decentemente, conversaria servida de café e carinho. E tantas outras coisas mais. O que eu fiz? Nada mais é possível.
Esse meu tempo desesperado que me atrapalha, meu gênio que me estorva.
A unica coisa que me resta é deitar a rede, olhar o ceu e esperar…
Será que irá brotar?
Comentário por sarah — junho 23, 2010 @ 8:14 pm