E que culpa tenho eu da cara silenciosa e constrangida dos homens? Não se pode guardar todos no coração. O mundo não tem problemas, nem soluções, muito menos miséria, quando você não menstrua. É absurdo pensar em crises existenciais quando se tem um filho para amamentar. Depois de um ano e seis meses o sangue desceu. e com ele a consciência de que de sangue também sou feita. Mas isso precisa ser me mostrado com tanta brutalidade? Como se eu não soubesse que minhas veias e artérias pulsam. Um ser humano tem por direito de nascença poder dormir em paz – afinal, ele é jogado na rua sem explicações. Esse é o nosso digno lugar-comum. Onde nos entendemos atentos, para além das palavras. Esse lugar, antes da ordem e antes do nome: nós somos…desamparados. Mas precisamos fazer disso um auto-martírio? precisamos. As coisas não são assim tão perigosas e o mundo não termina amanhã. O medo confundiu o desejo com a realidade. E a verdade é que morremos, sozinhos, com dor, com sangue, nossa carne apodrece e fede, os vermes nos comem, deixamos nossas coisas e nossas conquistas. Equiparados ao lodo, somos o nada e dele nos alimentamos. E eu farei de tudo para que me amem. Roubarei, matarei, enganarei, simularei, tudo, e tudo para que você não me olhe como um cão jogado a sarjeta. Porque o mundo é osso e a agressividade é minha vida animal. Mas por deus!, muito antes de sabermos os cães se amavam e lambiam os seus filhotes. É preciso confiar, temos fortes instintos, além do mais: unhas e dentes.
junho 23, 2011
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