Kate magrela deslizou o dedo por detrás da orelha arrumando o cabelo. Abriu os olhos e se viu em uma sala imensa repleta de portas iguais e fechadas, curiosas portas, ou curiosa Kate.
Andou devagar. Escolheu uma com muita dúvida e medo, girou a maçaneta, abriu. Era outra sala, esta era escura, tinha paredes nas laterais, não tinha parede no fundo, não se via o final, não se via o teto, o chão era feito de um piso branco tendo os azulejos enfeitados de pequeninos riscos azuis, era o que Kate conseguia ver até então.
A única “coisa” bonita da sala era um sofá verde florescente ao lado direito, a garota foi até ele e se sentou tranqüila, ali no sofá já não sentia medo, todo aquele lugar surreal já era familiar. Kate olhou o chão com mais atenção e percebeu que era feito de papel. Que estranho! Pegou um deles e examinou, era um bilhete destinado a ela, com a assinatura de um chegado seu. Leu no bilhete várias peculiaridades que este chegado pensava a respeito dela. Interessante!
A garota sabia que após ter sentado no sofá poderia fazer o que quisesse, isto não chegou desta forma em sua consciência, ela apenas sabia como se soubesse há anos, fez então um gesto convocatório com a mão direita, e os papéis obedientes voaram até ela. Kate ficou feliz em ver que todos eram bilhetes de amigos e conhecidos… Mas logo algo a atormentou.
Olhando novamente para o chão, algumas lágrimas saíram com a surpresa e pavor de Kate, não havia chão, um abismo. Entendendo o que significava tudo aquilo a menina chorou muito. Horas internas se passaram enquanto chorava. O que havia entendido, sabendo que de alguma forma seu ser se conectava àquela sala, era que seu chão era composto pela “opinião das outras pessoas”, pensou isso com desprezo, se assim era, onde estava sua essência? Seu próprio bilhete no chão. Retiradas as opiniões alheias, não havia chão. E chorava…
Só quando não agüentou mais chorar, Kate teve energia para novas percepções, fora tola esquecendo-se de um detalhe. O lindo sofá verde não despencou, nem ao menos tremeu. Tudo bem, não era tão reconfortante, pois sem o chão Kate ficaria sentada no sofá por toda a eternidade, mas ao menos algo dela sustentava o sofá.
De repente um misto de euforia e cautela encheu o peito da doce magrelinha. Todos aqueles papeis ainda estavam em suas mãos. Não queria se iludir de esperanças antes de tentar, então tentou rapidamente. Soltou um dos papeis… este caiu assim mesmo, como um papel aberto deve cair. Ó Kate por que chorou tanto?
O papel se posicionou no chão com a parte escrita virada para baixo. A garota testou com o pé, estava sólido como que feito de cimento e azulejo novamente. Só por orgulho Kate posicionou todos os outros papéis igualmente com a parte escrita para baixo, achando que daquela forma estaria decidindo que a opinião dos outros era um tiquinho menos importante que antes.
A doce tolinha voltou a ficar tranqüila, não ia perder o chão tão cedo. Mesmo assim não saiu de seu querido sofá verde, resolvendo tirar um cochilo, assim como uma criança faz após aliviar tensão. Nem quis saber o que segurava o sofá. Já chorou demais por hoje.
(Andorinha)