Dona Rose acordou cedinho, fez café, tomou banho e minuciosamente olhou-se na frente do espelho, vestiu um vestido antigo, bordado pela sua mãe. Hoje é uma a data especial – pensava, sorria. Pegou o título de eleitor, os documentos (todos eles) e acordou Camila, sua neta de sete anos, precisava de ajuda, não sabia mexer naquela máquina cheia de números.
Dona Rose é quase analfabeta, sabe colocar no papel seu nome, aprendeu com uma visinha. Segundo dados do IBGE existem no Brasil cerca de 16.294.889 analfabetos com mais de 15 anos, sendo que a maior parte deles (7.939.568) tem mais de 50 anos de idade. Dona Rose não se enquadra nesses números, já que sabe desenhar o próprio nome.
Assim que Camila acordou as duas apressadamente foram para o ponto de ônibus. Há mais de 20 anos Dona Rose vota na mesma zona eleitoral, na mesma seção. Sua família já se mudou várias vezes, mas a tímida senhora nem imagina que pode pedir para votar em um local mais perto.
Bom dia! A senhora trouxe o título?Não, esse ano a seção 01 não é aqui, mas é no andar de cima. Faz assim, sobe esta escada e anda à direita, aí logo logo a senhora vai ver esse número escrito na porta.
Dona Rose subiu a escada demoradamente, mas ainda sorrindo. A neta aos berros: ali vovó, é alí.
Na sala correta, a menina trazia o papel com o número dos candidatos que a avó escolhera enquanto esperava a novela. Orgulhosa, Dona Rose pegou a caneta me olhou e disse: Roselaina Aparecida Soares!. Os olhos com remela e a boca quase sem dentes atravessaram a sua simplicidade, revelaram um esperança perigosa, uma alegria anestesiante. Não sei se acreditava em mudança, em política, em honestidade, em democracia, mas essas eram palavras bonitas que ela escutava com recato e deslumbramento.
Passei seu título para o presidente de mesa, que digitou no terminal eletrônico o código. Amassado, cheio de marcas de dobras sujas, o título estava quase ilegível e Pronto agora a senhora já pode ir votar. E ela balançou a cabeça e estendeu a mão na direção da neta e antes da menina ir o fiscal alertou. Não pode. A menina fica aqui! Então Camila deu o papelzinho para a avó que com amedrontamento se dirigiu a chamada Cabina.
Dona Rose erradamente humilde e obediente sabia agora, mais do que nunca, que calçava chinelo. Com os olhos em direção aos pés com vergonha de existir ela pegou o papel e demoradamente, que era seu modo de agir, afastou a cadeira em frente da urna. Da mesa em que sentava eu olhava sua mão tremula de velhice e seu rosto esticando-se para fora da cabina, a todo o momento pedia clemência aos fiscais. O terminal eletrônico de controle dos mesários pontuou a demora na votação: Dona Rose pega o papel e procura o número na urna, aperta o botão do número e depois a tecla verde! A verde Dona Rose!
Devido à demora o mesário cancelou a operação. A neta correu e deu o braço de apoio. Dona Rose tinha trombose nas pernas, problema de coluna e uma velhice infernal – de quem têm as marcas de uma vida inteira de trabalho braçal.
Já no corredor da sala Dona Rose avistou uma conhecida na fila. Nossa quanto tempo Dona Rose. Tudo bem com a senhora? E ela se virou, pegou no braço na moça e disse: Eu preciso de remédio pro fígado. Eu preciso colocar meu netinho numa creche porque eu não consigo mais cuidar de criança pequena.
Esperaram horas no ponto de circular. A senhora pagou a passagem da neta com a aposentadoria e disse: sou muito velha, agora é a vez de vocês, os mais novos. Daqui um tempo você já estará votando. E voltou a sorrir. Vó vamos comprar um sorvete? Eu tenho dinheiro, semana passada o pai me deu e eu não gastei. Olha….então continua guardando, não é bom gastar com doce, minha filha.
No ônibus Dona Rose se segura em Camila, que é forte…a menina tinha costume de falar gritando e grita: Já é o ponto de parada? A avó balança a cabeça, sem coragem de dizer à garota que isso tudo é uma mentira, que o fim disso tudo não está próximo, nem se quer existe.
(coruja)